Um “carocinho” aparece na pálpebra. Costuma ser doloroso no início, o olho fica meio inchado, um pouco vermelho. Você toca sem querer e sente aquele nódulo pequeno mas incômodo. É terçol? É calázio? São a mesma coisa? Uso compressa quente ou fria? Passo colírio? Espremo?
Terçol e calázio são as duas alterações mais comuns das glândulas das pálpebras, causam bastante desconforto e — apesar de parecerem iguais no início — têm mecanismo, tratamento e evolução diferentes. Este artigo explica cada um, o que fazer no primeiro momento, o que evitar (importante!) e quando procurar o oftalmologista.
Um pouco sobre as glândulas das pálpebras
As pálpebras têm várias glândulas com funções importantes para a saúde ocular. As duas principais no contexto de terçol e calázio são:
- Glândulas de Meibomius: ficam alinhadas dentro da pálpebra, com abertura na margem palpebral (na base dos cílios). Produzem a camada oleosa do filme lacrimal, essencial para evitar evaporação da lágrima;
- Glândulas de Zeis: pequenas glândulas sebáceas próximas aos folículos dos cílios.
Quando essas glândulas se inflamam ou obstruem, aparecem as duas condições em questão.
O que é terçol (hordéolo)
O terçol — nome médico hordéolo — é uma infecção aguda de uma glândula da pálpebra, geralmente por bactérias comuns da pele. Tem características típicas:
- Nódulo pequeno, dolorido e vermelho na pálpebra;
- Aparece rápido — em horas ou 1-2 dias;
- Sensível ao toque, dolorido;
- Pode ter ponto de pus visível na margem da pálpebra;
- Pálpebra ao redor edemaciada e vermelha;
- Duração típica: 5-10 dias, com pico de sintomas em 3-4 dias.
Existe terçol externo (na base do cílio, mais visível, mais superficial) e terçol interno (mais profundo, na porção interna da pálpebra, geralmente mais dolorido e demorado para resolver).
O que é calázio
O calázio é uma inflamação crônica de uma glândula de Meibomius que ficou obstruída. Não é infecção — é uma reação inflamatória localizada ao redor do material sebáceo retido. Características:
- Nódulo firme, indolor (após fase aguda inicial);
- Cresce mais devagar — semanas a meses;
- Sem vermelhidão importante da pele ao redor;
- Localizado mais para dentro da pálpebra (não na margem);
- Pode permanecer por muito tempo se não for tratado adequadamente;
- Às vezes evolui de um terçol interno que não se resolveu completamente.
A diferença prática mais importante entre os dois: terçol dói; calázio geralmente não dói. Terçol é agudo e vermelho; calázio é crônico e firme.
Fatores que aumentam a chance de aparecer
- Blefarite: inflamação crônica das margens das pálpebras. É provavelmente o principal fator predisponente para terçol e calázio recorrentes;
- Disfunção das glândulas de Meibomius: as mesmas glândulas envolvidas no olho seco evaporativo. Pacientes com olho seco evaporativo tendem a ter mais calázios;
- Higiene palpebral inadequada;
- Rosácea: pessoas com rosácea têm risco significativamente maior;
- Uso frequente de maquiagem sem remoção adequada;
- Alergias oculares crônicas mal controladas;
- Diabetes descompensado.
Tratamento do terçol
Fase inicial: compressas mornas
A intervenção mais eficaz e mais subestimada. Compressas mornas (não quentes a ponto de queimar — mornas, confortáveis) aplicadas sobre a pálpebra fechada por 10-15 minutos, 3-4 vezes ao dia, aumentam a chance de drenagem espontânea, aceleram a resolução e reduzem a dor. Água limpa, morna, gaze limpa descartável.
Higiene das margens palpebrais
Limpeza suave da região com produtos específicos ou xampu neutro bastante diluído, para remover secreções e desobstruir glândulas próximas.
Antibiótico tópico
Colírio ou pomada antibiótica, prescrita quando indicada. Nem todo terçol precisa — muitos resolvem só com compressas.
O que NÃO fazer
- Não espremer. A tentação é grande, mas espremer terçol pode disseminar a infecção para tecidos vizinhos, causar celulite palpebral e piorar tudo;
- Não furar com agulha ou objeto. Nunca, em nenhuma hipótese;
- Não passar produtos “milagrosos” (sabonete, sal, saliva, alho — sim, todas essas coisas aparecem);
- Não usar maquiagem sobre a região;
- Suspender lentes de contato até resolução.
Tratamento do calázio
Compressas mornas + massagem
Mesmo princípio das compressas do terçol, agora com objetivo de amolecer o conteúdo obstruído da glândula. Após a compressa, massagem suave da região com movimentos em direção à margem da pálpebra pode ajudar a drenar o conteúdo naturalmente.
Antibiótico tópico
Muitas vezes prescrito, apesar de o calázio ser inflamatório e não infeccioso, para prevenir infecção secundária.
Injeção de corticoide local
Em calázios persistentes, o oftalmologista pode aplicar injeção local de corticoide, que reduz a inflamação e permite a resolução. Procedimento simples de consultório.
Drenagem cirúrgica
Para calázios grandes, persistentes ou que causam desconforto estético/funcional, drenagem cirúrgica em ambiente adequado é indicada. Procedimento rápido, com anestesia local, e resolução geralmente definitiva daquele calázio específico.
Terçol e calázio recorrentes: sinal para investigar
Se você tem terçol ou calázio recorrente — mais que 2-3 episódios por ano —, é sinal de que existe uma condição de base merecendo tratamento contínuo. Geralmente é blefarite associada a disfunção das glândulas de Meibomius, muitas vezes com componente de rosácea ocular.
O tratamento correto envolve rotina diária de higiene palpebral, compressas mornas de manutenção, colírios lubrificantes adequados, controle da rosácea (dermatologista quando indicado), e às vezes tratamentos específicos para as glândulas de Meibomius. É um trabalho contínuo, mas altamente eficaz para quebrar o ciclo de recorrências.
Quando procurar oftalmologista
- Terçol que não melhora em 5-7 dias apesar das compressas;
- Calázio persistente por mais de 3-4 semanas;
- Terçol ou calázio grande, que atrapalha visão ou fecha o olho;
- Sinais de infecção espalhando: vermelhidão que ultrapassa a área do nódulo, edema generalizado da pálpebra, febre;
- Recorrências frequentes;
- Alteração da visão associada.
Um nódulo persistente na pálpebra que não responde ao tratamento habitual também precisa ser avaliado para descartar condições menos comuns — em pessoas idosas, especialmente, todo nódulo palpebral persistente merece atenção específica.
Perguntas frequentes
Terçol é contagioso?
A bactéria causadora é comum e vive na pele; o terçol em si não é considerado contagioso da forma clássica. Ainda assim, evite compartilhar toalhas e maquiagem.
Posso usar maquiagem na fase aguda?
Não, e recomenda-se descartar produtos aplicados perto da região logo antes do surgimento — podem estar contaminados.
Meu terçol está começando. Posso fazer alguma coisa preventiva?
Compressas mornas frequentes desde o início aumentam a chance de resolução espontânea. Higiene das mãos e das margens palpebrais também ajuda.
Calázio pode virar câncer?
Calázio típico não. Mas alguns tumores palpebrais podem se apresentar como “calázios persistentes” — motivo pelo qual nódulos que não respondem a tratamento adequado merecem investigação em pessoas mais velhas.
Preciso mesmo suspender maquiagem e lente?
Enquanto houver inflamação ativa, sim. Depois de resolvido, pode retomar — com atenção à higiene.
Quantos dias para o terçol sarar?
Terçol simples geralmente resolve em 5-10 dias. Se ultrapassar duas semanas, avaliação oftalmológica.
Quando o corriqueiro merece cuidado
Terçol e calázio são incrivelmente comuns e geralmente autolimitados. Mas quadros que se repetem, se prolongam ou causam desconforto significativo merecem tratamento estruturado, muitas vezes com foco na doença de base (blefarite, disfunção das glândulas de Meibomius) para quebrar o ciclo.
Agende sua consulta pelo WhatsApp com a Dra. Andréa Laender.
Revisado por Dra. Andréa Laender — Oftalmologista e cirurgiã de catarata e retina. CRM/MG 65081 · RQE 45365.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui uma consulta médica. Para avaliação e orientação individualizada, agende uma consulta.
