Uma consulta clássica de consultório oftalmológico no Brasil: paciente adulto, geralmente entre 30 e 60 anos, muitas vezes com histórico de trabalho ou lazer ao ar livre, chega apontando o canto do olho e dizendo “essa carne está crescendo”. Trata-se do pterígio, condição comum, benigna, com aparência preocupante para quem não sabe o que é, e com histórias muito diferentes entre pacientes — alguns convivem décadas sem incômodo, outros precisam de cirurgia relativamente cedo.
Este artigo explica o que é o pterígio, por que aparece principalmente em climas ensolarados como o Brasil, quais são os sintomas e — mais importante — quando é realmente hora de operar e o que esperar do procedimento.
O que é o pterígio
Pterígio é um crescimento tecidual triangular, formado por conjuntiva alterada e vasos sanguíneos, que se estende sobre a córnea (a “janela transparente” do olho). Costuma começar no canto interno do olho (mais próximo ao nariz) e crescer lentamente em direção ao centro. É benigno — não é câncer nem tumor —, mas por invadir a córnea pode causar sintomas e, em casos avançados, interferir na visão.
A causa central é a exposição crônica à radiação ultravioleta associada a outros fatores irritativos (vento, poeira, ar seco). É por isso que a condição é significativamente mais frequente em populações que vivem em regiões tropicais, próximas ao equador, com muita luz solar direta. No Brasil, é uma queixa cotidiana no consultório.
Quem tem mais risco
- Pessoas expostas ao sol por longos períodos: agricultores, marinheiros, pescadores, atletas ao ar livre, trabalhadores de construção civil;
- Habitantes de regiões próximas ao equador com radiação UV mais intensa;
- Homens têm ligeiramente mais casos (provavelmente por maior exposição ocupacional);
- Adultos entre 30-60 anos — apesar de o processo começar antes;
- Exposição adicional a poeira, vento e ar seco (áreas rurais, canteiros de obra);
- Histórico familiar — componente genético existe.
Sintomas
Pterígio pequeno pode ser assintomático — apenas o aspecto estético incomoda alguns pacientes. Conforme cresce, pode causar:
- Sensação de corpo estranho (algo na superfície do olho);
- Ardência e vermelhidão episódicas, especialmente em exposição a irritantes;
- Lacrimejamento;
- Coceira;
- Fases de inflamação com aumento da vermelhidão;
- Em pterígios maiores: distorção da curvatura da córnea, gerando astigmatismo induzido e visão embaçada;
- Em casos avançados: invasão do eixo visual central, com perda significativa de visão até que se opere.
Prevenção
Uma das intervenções mais eficazes para prevenir aparecimento e progressão de pterígio é simples: proteção contra UV.
- Óculos escuros com filtro UV comprovado em atividades ao ar livre. Não qualquer óculos escuro — precisa ter filtro certificado;
- Chapéu de aba larga ou boné como proteção adicional;
- Evitar exposição prolongada nos horários de pico (10h-16h);
- Óculos de proteção em trabalhos com poeira, vento ou solventes;
- Colírios lubrificantes em ambientes secos, para manter a superfície ocular saudável e menos suscetível.
Vale destacar: essas medidas continuam relevantes mesmo depois de um pterígio já ter aparecido, para retardar o crescimento e evitar recidiva após cirurgia.
Tratamento não cirúrgico
Nem todo pterígio precisa de cirurgia. Para pterígios pequenos, estáveis e pouco sintomáticos, o manejo é:
- Proteção UV rigorosa;
- Colírios lubrificantes, especialmente sem conservantes;
- Colírios anti-inflamatórios em fases de crise;
- Acompanhamento oftalmológico periódico para monitorar crescimento.
Muitos pacientes convivem com pterígio pequeno por décadas sem necessidade cirúrgica, apenas com essas medidas.
Quando operar
A cirurgia é indicada quando:
- O pterígio avança sobre o eixo visual central, comprometendo a visão;
- Causa astigmatismo irregular significativo;
- Provoca inflamação recorrente que não responde bem ao tratamento clínico;
- Cresce rapidamente, indicando risco de comprometimento visual em curto prazo;
- Causa desconforto crônico que atrapalha a qualidade de vida do paciente;
- Impacto estético é significativo para o paciente (indicação legítima, discutida caso a caso).
Como é a cirurgia
Procedimento ambulatorial, com anestesia local, dura em torno de 30-45 minutos por olho. A técnica moderna preferida envolve:
- Remoção completa do tecido do pterígio;
- Cobertura da área com um enxerto autólogo de conjuntiva (retirado de outro local do próprio olho do paciente);
- Fixação do enxerto com cola tecidual (fibrina) ou pontos absorvíveis.
Essa técnica com enxerto conjuntival tem taxa de recidiva muito menor do que a antiga técnica de “raspagem simples” — que era associada a recorrência frequente. Recidiva ainda é possível (5-15% na média com técnicas modernas), mais provável em pacientes jovens, com pterígios grandes ou continuação da exposição UV intensa sem proteção.
Como é o pós-operatório
- Recuperação de 2-4 semanas com desconforto decrescente;
- Colírios antibióticos e anti-inflamatórios por várias semanas;
- Vermelhidão que diminui gradualmente ao longo de 1-3 meses;
- Evitar exposição solar intensa nas primeiras semanas;
- Proteção UV rigorosa daí em diante, para reduzir risco de recidiva;
- Consultas de acompanhamento no primeiro dia, primeira semana, primeiro mês, e periodicamente depois.
Perguntas frequentes
Pterígio pode virar câncer?
Pterígio típico é benigno e não vira câncer. Existem outras lesões oculares (raras) que podem se confundir clinicamente com pterígio e precisam ser diferenciadas em avaliação oftalmológica — motivo pelo qual toda “carne no olho” merece exame adequado, não autodiagnóstico.
Se eu operar, ele volta?
Pode voltar, mas as técnicas modernas com enxerto reduziram muito o risco. Exposição UV continuada sem proteção após a cirurgia aumenta significativamente a chance de recidiva.
Convênio cobre?
Cirurgia de pterígio com indicação médica costuma ser coberta pelos planos de saúde. Vale confirmar com seu convênio e com o consultório sobre a documentação necessária.
Dá para operar os dois olhos ao mesmo tempo?
Geralmente se opera um olho de cada vez, com intervalo de algumas semanas. Isso permite que o paciente mantenha visão funcional durante a recuperação.
Colírio dissolve o pterígio?
Não. Nenhum colírio dissolve ou faz o pterígio regredir. Colírios têm papel de aliviar sintomas e reduzir inflamação, não de remover o tecido.
Preciso mudar de profissão se trabalho ao sol?
Não. Mas incorporar proteção adequada (óculos com UV, chapéu, evitar horários de pico quando possível) é essencial para prevenção e para reduzir risco de recidiva pós-operatória.
Avaliação simples, decisão informada
Se você tem uma “carne no olho” que apareceu ou está crescendo, o passo certo é avaliação oftalmológica para confirmar o diagnóstico, medir o crescimento, avaliar impacto na visão e conversar sobre necessidade e timing de cirurgia. Muitas vezes a decisão é “acompanhar por enquanto”; em outros, é “operar antes que atrapalhe visão”.
Agende sua consulta pelo WhatsApp com a Dra. Andréa Laender.
Revisado por Dra. Andréa Laender — Oftalmologista e cirurgiã de catarata e retina. CRM/MG 65081 · RQE 45365.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui uma consulta médica. Para avaliação e orientação individualizada, agende uma consulta.
