Quem decide fazer uma cirurgia refrativa para largar os óculos passa, invariavelmente, pela mesma dúvida em algum momento do processo: LASIK ou PRK? Consulta oftalmológica em oftalmologista amigo, pesquisa na internet, conversa com quem já fez — cada um responde de um jeito. E a verdade é que não existe uma “melhor técnica” universal. Existe a técnica indicada para o seu olho, com os seus exames, com a sua rotina.
Este artigo explica em detalhes o que é cada uma dessas técnicas, quais são as diferenças reais entre elas, os critérios que o oftalmologista considera ao definir a indicação e o que esperar de recuperação em cada caso. Ao final, você terá as informações necessárias para chegar na consulta pré-operatória com perguntas certas — em vez de comparações genéricas.
O que a cirurgia refrativa faz
Miopia, hipermetropia e astigmatismo são erros refrativos causados por pequenas variações na forma como o olho foca a luz sobre a retina. Nos míopes, o olho é ligeiramente mais alongado ou a córnea mais curva do que o ideal, e a luz foca antes da retina. Nos hipermétropes, o oposto — a luz foca atrás. No astigmatismo, a córnea tem curvatura irregular, criando múltiplos focos.
A cirurgia refrativa a laser remodela a superfície da córnea com precisão de micrômetros, ajustando essa curvatura para que a luz volte a focar exatamente onde deveria — na retina. É basicamente esculpir uma lente natural sob medida para o seu olho, dispensando a lente artificial dos óculos.
O laser usado é o mesmo nas duas técnicas: um excimer laser, que remove tecido com precisão altíssima e sem gerar calor significativo. A diferença entre LASIK e PRK está em como se acessa a camada da córnea onde o laser será aplicado.
LASIK: como funciona
Na técnica LASIK, o cirurgião cria uma fina lamela na superfície da córnea — um “flap” com menos de 100 micrômetros de espessura, que permanece preso por uma pequena dobradiça de tecido. Essa lamela é levantada, expondo a camada interna da córnea (o estroma), onde o laser aplica a correção do grau. Terminada a aplicação, a lamela é recolocada em posição e adere naturalmente, sem necessidade de pontos.
A criação da lamela pode ser feita com um microceratômo mecânico (técnica mais antiga) ou com um segundo laser chamado femtosegundo — nesse caso, é o LASIK femtossegundo, considerado o padrão atual. Alguns consultórios oferecem também SMILE, uma variante mais recente com menor criação de lamela.
PRK: como funciona
Na técnica PRK, não se cria lamela. Em vez disso, a fina camada superficial da córnea (o epitélio) é removida delicadamente, expondo diretamente o estroma. O laser aplica então a correção, e uma lente de contato terapêutica é colocada no olho para proteger a superfície enquanto o epitélio se regenera naturalmente — o que leva de 3 a 5 dias.
É a técnica mais antiga das duas, mas continua sendo indicada em situações específicas e apresenta vantagens próprias que veremos adiante.
As principais diferenças na prática
Recuperação visual
Aqui está a diferença mais perceptível para o paciente. No LASIK, a recuperação visual é rápida: muitos pacientes já enxergam bem no dia seguinte à cirurgia, com refinamento contínuo nas semanas seguintes. No PRK, a recuperação é gradual — os primeiros 3-5 dias são de visão embaçada enquanto o epitélio se regenera, e a estabilização visual acontece ao longo de várias semanas.
Desconforto pós-operatório
O LASIK é conhecido pelo baixíssimo desconforto pós-operatório. Muitos pacientes relatam apenas leve sensação de areia por poucas horas. O PRK, especialmente nos primeiros 2-3 dias, envolve mais desconforto — ardência, lacrimejamento, sensibilidade à luz — controlado com colírios analgésicos e a lente de contato terapêutica.
Espessura da córnea necessária
O LASIK exige uma córnea com espessura suficiente para acomodar a lamela e ainda deixar tecido residual seguro após a aplicação do laser. Pacientes com córnea fina, ou grau muito alto, podem não ter margem para o LASIK — e nesses casos o PRK, que não consome tecido para lamela, se torna a técnica adequada.
Riscos específicos
Como toda cirurgia, as duas têm riscos. No LASIK, o flap traz um risco adicional específico: deslocamento em caso de trauma direto no olho, mesmo anos depois. Por isso o LASIK é frequentemente contraindicado para militares em combate, praticantes de artes marciais em nível profissional e outras profissões de alto risco de impacto ocular. O PRK, sem lamela, não tem esse risco.
Halos noturnos
Ambas as técnicas podem gerar halos ou reflexos ao redor de luzes à noite nas primeiras semanas, principalmente em pupilas grandes. Costumam melhorar com o tempo e não são específicas de uma técnica ou outra.
Como o oftalmologista escolhe a técnica
A escolha entre LASIK e PRK não é opinião do paciente — é indicação médica baseada em exames objetivos. Os fatores considerados incluem:
- Paquimetria (espessura da córnea): exame fundamental que mede em cada ponto a espessura da córnea. Determina se sobra tecido suficiente para LASIK com segurança;
- Topografia e tomografia de córnea: mapeiam a curvatura e a estrutura da córnea, identificando irregularidades que podem contraindicar uma ou outra técnica;
- Grau a corrigir: graus muito altos consomem mais tecido, tornando o PRK preferível em algumas situações;
- Idade e estabilidade do grau: a cirurgia é indicada a partir dos 21 anos e com grau estável por pelo menos 1 ano;
- Profissão e estilo de vida: profissões de alto impacto favorecem PRK;
- Presença de olho seco: pacientes com olho seco significativo se adaptam melhor ao PRK, porque o LASIK pode agravar o quadro nos primeiros meses;
- Preferência quanto à recuperação: quando ambas as técnicas são viáveis, alguns pacientes preferem a recuperação rápida do LASIK; outros aceitam recuperação mais lenta do PRK em troca de outras vantagens.
O que ambas as técnicas têm em comum
Independente da técnica escolhida, algumas realidades se aplicam às duas:
- A cirurgia dura poucos minutos por olho e é feita com colírio anestésico, sem internação;
- Os dois olhos costumam ser operados na mesma sessão;
- A avaliação pré-operatória é extensa e envolve múltiplos exames — não se marca cirurgia refrativa em uma única consulta rápida;
- Nenhuma das duas técnicas corrige a presbiopia — a chamada vista cansada que aparece a partir dos 40 anos — a menos que se planeje monovisão (foco de perto em um olho, foco de longe no outro), o que é uma estratégia específica;
- Nenhuma das duas previne catarata no futuro — cirurgias de catarata continuam podendo ser necessárias décadas depois, ajustando-se o cálculo da lente ao histórico refrativo;
- Ambas exigem cuidados no pós-operatório: colírios, evitar coçar os olhos, proteção contra impacto e água contaminada nas primeiras semanas.
Perguntas frequentes
O grau pode voltar depois da cirurgia?
Na maioria dos casos o resultado é duradouro, especialmente quando o grau estava estável há pelo menos 1 ano antes da cirurgia. Pequenas variações podem ocorrer ao longo dos anos, especialmente após os 40 (com a chegada da presbiopia). Em situações específicas, um retoque pode ser avaliado.
Toda pessoa com miopia pode operar?
Não. Aproximadamente 15-20% dos candidatos são reprovados na avaliação pré-operatória — por córnea fina, ceratocone (mesmo em fase inicial), olho seco grave, doenças de retina ou outras condições. É por isso que os exames pré-operatórios são tão detalhados: eles existem justamente para identificar quem não deve operar.
SMILE é melhor que LASIK?
SMILE é uma técnica mais recente que dispensa a criação de flap tradicional e usa um único laser. Tem vantagens em olho seco pós-operatório em alguns casos, mas não corrige toda a gama de graus que o LASIK trata (não faz hipermetropia, por exemplo) e tem outras particularidades. É mais uma opção no leque, não necessariamente “melhor”.
E se eu não puder fazer nenhuma das duas?
Se a avaliação mostrar que nem LASIK nem PRK são indicados, existem alternativas — implante de lentes fácicas (que se colocam dentro do olho sem remover o cristalino), cirurgia com lente intraocular (mais indicada acima dos 50 anos) — que o oftalmologista pode discutir. Cada caso tem sua conversa específica.
Convênio cobre?
A cirurgia refrativa raramente é coberta por planos de saúde — costuma ser tratada como procedimento eletivo. Vale conferir com seu convênio, mas o padrão é pagamento particular. Alguns hospitais oferecem parcelamento.
Posso ficar cega?
Complicações graves com perda visual significativa são extremamente raras nas duas técnicas, quando indicadas corretamente e feitas com equipamento moderno. O risco não é zero (nenhuma cirurgia tem risco zero), mas é baixíssimo comparado à qualidade de vida que o procedimento entrega quando bem indicado.
O passo mais importante é o pré-operatório
Um bom candidato a cirurgia refrativa faz uma avaliação pré-operatória minuciosa antes de decidir. Não uma consulta rápida — uma avaliação que envolve múltiplos exames de córnea, avaliação de retina, teste de estabilidade do grau, discussão honesta de expectativas.
Para conhecer melhor a estrutura da avaliação e o que esperar do procedimento, veja também nossa página sobre cirurgia refrativa em Belo Horizonte. Para agendar avaliação, entre em contato pelo WhatsApp com o consultório da Dra. Andréa Laender.
Revisado por Dra. Andréa Laender — Oftalmologista e cirurgiã de catarata e retina. CRM/MG 65081 · RQE 45365.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui uma consulta médica. Para avaliação e orientação individualizada, agende uma consulta.
