Saúde Ocular

Conjuntivite

Por Andrea Leander  ·  7 min de leitura
Imagem destacada: Close de olho com leve vermelhidão, ambiente iluminado. Alt: "Conjuntivite — inflamação da conjuntiva ocular pode ter causas diferentes"

O olho amanhece vermelho, com secreção, coçando ou ardendo, e a família toda entra em alerta: “está com conjuntivite”. Nas próximas horas, começa a peregrinação por farmácia, aviso na escola, isolamento no trabalho e, muitas vezes, aplicação de um colírio qualquer que “alguém tinha em casa”. Só que essa história, tão familiar, esconde um detalhe importante: conjuntivite não é uma doença única. É o nome dado à inflamação da conjuntiva (a membrana transparente que reveste a parte branca do olho e o interior das pálpebras), e as causas dessa inflamação são várias.

Cada tipo tem sintomas ligeiramente diferentes, exige tratamento próprio e comporta-se de forma distinta em termos de contágio. Usar o tratamento errado pode não resolver — em alguns casos, atrasar diagnóstico ou piorar. Este artigo explica como distinguir os três principais tipos, o que fazer em cada situação e quando procurar o oftalmologista com urgência.

Os três principais tipos de conjuntivite

Conjuntivite viral

A mais comum, especialmente em picos sazonais. Causada por vírus (adenovírus é o principal), é extremamente contagiosa e costuma se espalhar rapidamente em famílias, escolas, escritórios e ambientes fechados. Tem características típicas:

  • Vermelhidão em um olho primeiro, com contágio para o outro em 2-5 dias;
  • Secreção aquosa, clara — parecida com lágrima;
  • Sensação de areia intensa e ardência;
  • Frequentemente associada a sintomas gerais de infecção viral: mal-estar, dor de garganta, gânglios aumentados na frente da orelha;
  • Duração de 7 a 15 dias;
  • Contagioso enquanto houver secreção — geralmente por 10-14 dias.

Não tem tratamento antiviral específico na maioria dos casos. O manejo é sintomático: compressas frias, colírios lubrificantes sem conservantes, higiene rigorosa das mãos para evitar contágio. Antibiótico não funciona (é vírus, não bactéria) e pode até piorar por irritação química.

Conjuntivite bacteriana

Menos comum em adultos que a viral, mais frequente em crianças pequenas. Características:

  • Secreção espessa, amarelada ou esverdeada — geralmente abundante;
  • Costuma acordar com as pálpebras “coladas” pela secreção seca;
  • Vermelhidão geralmente mais concentrada;
  • Menos coceira, mais sensação de olho pesado;
  • Pode acometer um olho só, sem necessariamente contagiar o outro;
  • Duração de 5 a 10 dias com tratamento adequado.

Aqui o antibiótico em colírio tem papel real — mas idealmente prescrito por médico, tanto para escolha adequada quanto para descartar quadros mais graves que se parecem com conjuntivite bacteriana comum.

Conjuntivite alérgica

Não é contagiosa, não é infecciosa. É uma reação de hipersensibilidade a substâncias do ambiente — pólen, ácaros, pelos de animais, mofo, poeira. Diferenças típicas:

  • Vermelhidão geralmente nos dois olhos ao mesmo tempo;
  • Coceira intensa — é o sintoma dominante, muito mais forte que na viral ou bacteriana;
  • Secreção fluida, branca ou transparente, geralmente escassa;
  • Pálpebras podem inchar;
  • Frequentemente associada a outros sintomas alérgicos: rinite, espirros, prurido nasal;
  • Recorrente, com padrões sazonais ou desencadeada por exposições específicas.

O tratamento envolve antialérgicos (colírios específicos e, em casos maiores, orais), controle de ambiente e — importantíssimo — evitar coçar os olhos, o que agrava o ciclo inflamatório e, em quadros crônicos, pode contribuir para outras condições como o ceratocone.

Como fazer a diferenciação em casa

Não substitui avaliação médica — mas alguns sinais orientam:

  • Secreção espessa amarelada: pensa em bacteriana;
  • Secreção aquosa clara + mal-estar geral + gânglio na frente da orelha: pensa em viral;
  • Coceira intensa nos dois olhos + histórico alérgico + secreção escassa: pensa em alérgica;
  • Início em um olho e progressão para o outro em 2-5 dias: mais compatível com viral;
  • Sintomas cíclicos que voltam nas mesmas épocas do ano: alérgica.

Casos duvidosos, ou que não melhoram como o esperado, merecem consulta.

Quando procurar o oftalmologista sem esperar

Nem toda vermelhidão ocular é conjuntivite simples. Alguns sinais indicam quadros que precisam de avaliação urgente, porque podem envolver a córnea, a íris ou outras estruturas com risco visual:

  • Dor importante no olho (mais que desconforto — dor verdadeira);
  • Alteração da visão — embaçamento, sombras, perda de nitidez;
  • Sensibilidade extrema à luz;
  • Sensação de que “algo entrou no olho” e não sai;
  • Vermelhidão ao redor da íris (círculo colorido do olho) em vez de generalizada;
  • Pupila diferente do olho contralateral;
  • Trauma prévio recente na região do olho;
  • Uso de lentes de contato — vermelhidão em usuário de lente é urgência oftalmológica até prova em contrário.

Nestes casos, não é “esperar 2 dias e ver se passa”. É consulta oftalmológica no mesmo dia.

Cuidados de contágio na conjuntivite viral

A viral é a mais contagiosa e a que costuma virar surto familiar ou escolar. Medidas que reduzem drasticamente a transmissão:

  • Lavar as mãos com frequência — sabão ou álcool 70% depois de qualquer contato com o rosto;
  • Não compartilhar toalhas, fronhas, maquiagem, colírios;
  • Evitar tocar os olhos com as mãos;
  • Isolamento do trabalho/escola pelo menos enquanto houver secreção evidente (padrão é 5-7 dias, mas a orientação é do médico);
  • Trocar fronhas e toalhas com frequência;
  • Evitar piscinas, saunas, ambientes coletivos.

A boa notícia: passada a fase aguda, não há sequela na visão na imensa maioria dos casos.

Perguntas frequentes

Posso usar aquele colírio que sobrou de outra vez?

Não é boa ideia. Além de o colírio ter validade curta após aberto, o tipo certo depende da causa — e o errado pode piorar. Colírios com corticoide, em especial, podem agravar significativamente uma conjuntivite viral e mesmo herpes ocular, que às vezes se confunde com conjuntivite comum.

Colírio para vermelhidão de farmácia resolve?

Não trata a causa — só reduz a vermelhidão temporariamente por vasoconstrição. E o uso frequente pode gerar efeito rebote (vermelhidão que volta mais forte). Não é indicado como tratamento.

Conjuntivite pode dar em bebê?

Sim, e bebês merecem avaliação pediátrica sempre. Conjuntivite em recém-nascidos pode ter causas específicas e mais graves que exigem atenção imediata.

Posso trabalhar com conjuntivite?

Na alérgica, sim. Na viral, o correto é afastamento pelo período de contagiosidade — para proteger colegas. Na bacteriana, geralmente após 24-48h de antibiótico tópico o risco de contágio diminui muito.

Compressas devem ser quentes ou frias?

Frias aliviam mais na alérgica e viral (reduzem vermelhidão e coceira). Mornas ajudam na bacteriana (auxiliam a soltar secreção). Água filtrada, gaze limpa descartável.

Uso lente de contato e minha conjuntivite recém-diagnosticada. Continuo usando?

Não. Suspenda o uso de lente até resolução completa e liberação médica. Lente de contato + conjuntivite = risco significativo de complicação corneana.

Quando na dúvida, consulte

Conjuntivite é tão comum que muita gente subestima — mas quadros que se prolongam, se repetem, ou que vêm com sinais de alerta merecem avaliação. Não é frescura: é evitar complicações que se dão em quadros mal manejados.

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Revisado por Dra. Andréa Laender — Oftalmologista e cirurgiã de catarata e retina. CRM/MG 65081 · RQE 45365.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui uma consulta médica. Para avaliação e orientação individualizada, agende uma consulta.

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